Coma. Beba. Experimente. Mude. Tente. Pense diferente. Enfim, “just do it”.
Vivemos hoje em um mundo vazio, de diferentes estímulos, sem emoção e sensibilidade. Aparentemente apresentados como valiosos conselhos, esses conceitos são parte de uma exacerbada estratégia para potencializar o ritmo de consumo, aumentando a demanda por novos produtos, serviços, sensações, tendências etc.
A propaganda mundial está focada no imediatismo. É claro que isso é perfeitamente compreensível. Afinal, uma das funções básicas da propaganda é vender. Isso é fato. Porém, não existe apenas a venda de produtos. Podemos vender também idéias, conceitos, atitudes, mudanças, filosofias de vida e, até mesmo, a própria vida.
É possível dizer que o consumidor moderno já está acostumado a ‘receber ordens’ e conviver com tantas mensagens imperativas. Isso, aliás, funciona muito bem. Essa técnica de criação já passou pelo crivo e é, comprovadamente, eficaz.
A questão é: onde está a propaganda que emociona, que faz chorar, rir e, principalmente, pensar? Onde está a propaganda que caminha e vai ao encontro da arte?
Quem não se lembra das memoráveis campanhas dos anos 80 e 90? Lembro-me muito bem do VT que mostrava um orelhão agonizando na rua, cercado por várias pessoas que, ali, presenciavam a sua morte. Naquela época, na cidade de São Paulo, os orelhões estavam sendo alvos de vândalos que, impiedosamente, quebravam todos os orelhões que encontravam pelo caminho. Maravilhosamente criado por Washington Olivetto, o comercial emocionou, tocou a fundo a população, sensibilizando até mesmo um bando de vândalos. Após a veiculação da campanha, os prejuízos da empresa de telefonia pública da época foram reduzidos significativamente.
Campanhas assim, que adotam uma linha criativa emocional, ficam, formam opinião, caráter e comportamento. Marcam toda uma geração que, como a minha, ainda lembram-se do primeiro soutien, do 752 da Vulcabrás do jingle que dizia Varig, Varig, Varig e do comercial da Revista Época, intitulado “Semana”.
Atualmente é tão raro encontrar campanhas assim que me lembro apenas de um recente VT do Greenpeace que usa como back ground e trilha sonora a música My Way, interpretada por Frank Sinatra. Sensacional, emocional, funcional, brilhante. Isso é arte, é propaganda.
Em um discurso como paraninfo de uma turma de universitários, Nizan Guanaes disse que Michelangelo não pintou a Capela Sistina por dinheiro. Foi em nome da arte. O fato é que o valor das pinturas, hoje, é incalculável. É impossível calcular não só o valor monetário, mas também o valor sentimental e o que ela representa para a humanidade. Naquela oportunidade, Nizan quis dizer que é preciso ter tesão em tudo o que fazemos e que o dinheiro importa sim, mas não é a razão de tudo. Na propaganda é a mesma coisa. Para quem vai ser um profissional de propaganda, acho fundamental pensar sobre isso.
É fundamental pensar que a propaganda é uma arte e nós, publicitários, somos artistas do mundo moderno. Somos responsáveis pela arte e profissionalismo na propaganda. Responsáveis por continuar criando estímulos vazios e sem criatividade ou emocionar, fazer rir, chorar, pensar e, é claro, verder. “Just do it'’.
Erick Cypriano - redator publicitário - erick@odyn.com.br