domingo, 13 de novembro de 2016

A periferia ocupa o Fórum


Na última quinta-feira (10), começou a edição de 2016 do Fórum das Letras em Ouro Preto. O evento segue com sua programação até o feriado da Proclamação da República (15) com o tema 'O Brasil'. Idealizado pela Professora Guiomar de Grammont e promovido pela Universidade Federal de Ouro Preto, o Fórum tem a missão de valorizar a diversidade e identidade da literatura de países que adotam a língua portuguesa, além de valorizar a importância de Ouro Preto e estabelecer um diálogo entre os autores convidados e o público que aprecia o evento.

Para aquela que vos escreve, o Cine Teatro Vila Rica sempre se destoou dos demais cinemas que visitei em todos esses anos de vida. E sempre me senti afeta pelo ambiente por remeter às origens do cinema com o visual que hoje chamaríamos de 'vintage' para simplificar. Devo confessar que me senti em casa com as almofadas espalhadas pelo chão, se a intenção da decoração era passar a imagem de "entre e fique à vontade", deu muito certo. A "casa", talvez, nunca tenha estado tão cheia como estivera na última quinta durante a mesa "Literaturas: questões do nosso tempo - Prosas periféricas", mediada por Erica Peçanha e composta pelo rapper Emicida e pelo escritor Ferréz (embora estes rótulos limitem a infinidade de coisas que os dois são e representam).

Em meio a muitas risadas e aplausos, a conversa se inicia pensada na "presença coletiva e visibilidade dos sujeitos da periferia como artistas, como produtores culturais e como empreendedores", como é dito inicialmente por Erica Peçanha. Da literatura marginal escrita da perspectiva sempre do "oprimido" e sua ilimitação à situação política atual do Brasil, sem nenhum diploma que não seja seu certificado de datilografia, como este ressalta em um ponto  da conversa, Ferréz demonstra uma oratória incrível, conhecimento vasto nas mais diversas áreas e uma clareza de ideias que até mesmo os considerados maiores intelectuais do país invejariam. Emicida, por sua vez, cheio de referências em figuras históricas (como Malcom X e Martin Luther King) e em personagens de histórias em quadrinhos, dá sequência à luta por nossa ancestralidade e busca retratar a periferia por si só de forma muito melhor que o nosso entretenimento já retratou.

Em ambos os discursos, os convidados conseguem fugir da mesmice criticada pelo próprio Emicida e rompem com a imagem da periferia que nos é transmitida sempre da mesma maneira pelas manchetes dos jornais e notícias na televisão. Como proposto, a história é contada pela perspectiva dos marginalizados e não pela perspectiva daqueles que marginalizam. Em uma conversa aberta e sem muita filtragem as respostas do Ferréz passam por desde o olhar com que a elite enxerga o periférico à relação que periferia tem com perpetuação do machismo através de algumas músicas. Além disso o Emicida ressalta a importância de não se medir a reação do oprimido sem antes contextualizar sua vivência em uma comparação excelente entre Magneto e Professor Xavier e as trajetórias de Malcom X e Martin Luther King Jr. (sim, o Emicida é nerd!!).

A mensagem que fica ecoando na nossa cabeça depois desse bate-papo de tirar o fôlego, além de todas as questões sociais levantadas na noite, é que na academia que sempre se fechou nela mesma através de um discurso implicitamente higienista está faltando histórias de periferia, 'tá faltando história do negro, 'tá faltando história da real identidade brasileira contada por aqueles que nunca tiveram voz. Cês 'tão ligado? E é por isso que a gente não pode abaixar a cabeça e muito menos deixar de cobrar representação em todos os lugares possíveis, além de continuar ocupando espaços que antes não eram pra nós — sejam as escolas e Universidades ou a passarela da São Paulo Fashion Week temos que continuar debatendo com nossos iguais e mais ainda com os diferentes. Porque como bem colocadas as palavras do Ferréz: "quando o militante abaixa a cabeça, a gente perdeu a guerra".

E se você ainda não teve a oportunidade de ficar por dentro do que tá rolando no Fórum, se liga na programação aqui que tem muita coisa bacana pra acontecer e ainda dá tempo de participar do evento.



Comentários
1 Comentários

Um comentário:

  1. que texto MARAVILHOSO Carol!
    Em comemoração ao dia da Consciência Negra, vc poderia fazer uma matéria sobre as conquistas dos negros nos últimos anos e como está este cenário. Quais são as próximas lutas e sobre a falta de representatividade em espaços ocupados por privilegiados. Forte Abraço.

    ResponderExcluir

Estamos ansiosos para ler seu comentário. Entretanto, tenha em mente que todos os comentários são manualmente moderados por nossos revisores de acordo com a nossa política de comentários.