quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Contracrítica - Animais Fantásticos e Onde Habitam (Sem Spoiler)


Na primeira cena, logo após a animação do escudo da Warner aparecer na tela acompanhado do tema clássico que deu as caras na nossa playlist (nesse momento, como a boa potterhead que sou, cheguei a ficar arrepiada), aparecem notícias de jornais que contextualizam o cenário em que o enredo se passa (técnica já utilizada por David Yates, diretor, em Harry Potter e a Ordem da Fênix), as manchetes apontam Grindewald (Johnny Depp) como uma ameaça por sua obsessão pelas relíquias da morte e a pretensão de instaurar no mundo bruxo uma 'nova ordem mundial' (isso lembra alguém?). E é nesse contexto que Newt Scamander (Eddie Redmayne), um magizoologista de personalidade um tanto peculiar, desembarca em Nova York para comprar uma criatura rara. Devido a um incidente, os animais fantásticos que ele carrega em sua mala escapam pelas ruas da cidade dos sonhos em plena década de 1920 e se inicia a aventura ao tentar capturá-los. O que parece ser, à primeira vista, uma mera sucessão de erros cômicos acaba ganhando consistência e se desenvolvendo em uma trama muito mais complexa do que eu esperava. 

Tal complexidade fica implícita logo na primeira cena de contato mais detalhado com os animais de Newt. Jacob (Dan Folger) passeia pelas floretas da mala encantada do magizoologista topando com ambientes e criaturas de cores vivas e, de repente, a atmosfera muda adquirindo um tom carregado assim que Jacob esbarra em um Obscurus. E durante a trama toda, visualmente, você esbarra com esses momentos que mostram os contrastes existentes dentro do mundo bruxo na alternância entre cenas com muita luz que geralmente vão nos deixar fascinados e cenas escuras que passam a ideia de uma atmosfera mais pesada e sombria. Você vai perceber que, assim como em outros filmes da saga de Harry Potter, as críticas políticas terão uma forte presença na história, com algumas pequenas alterações na estruturação do roteiro. Se antes o preconceito partia das famílias bruxas puristas, agora o preconceito parte dos no-majs (é assim que os americanos chamam os nossos já conhecidos trouxas). E esse é o arco principal entre alguns personagens como Jacob e as irmãs Porpentina (Katherine Waterston) e Queenie Goldstein (Alison Sudol); ou como Credence (Ezra Miller) e Percival Graves (Colin Farrell) - temos nessas relações citadas, novamente, o contraste entre a luz e a sombra respectivamente.

E é claro que o filme não deixa a desejar no que se diz respeito à efeitos especiais e CGI. Isso fica bem claro nas cenas que envolvem os feitiços que a gente já teve a oportunidade de conhecer antes e mais ainda na presença dos animais fantásticos. Sem falar no bônus da caracterização dos personagens e os figurinos impecáveis que realmente nos levam de volta no tempo para a Nova York de 1920 no cenário pós I Guerra Mundial combinado com a fotografia, algumas escolhas de posicionamento da câmera e direção de arte. Claro que potencializado pela experiência em 3D. O elenco também fez um excelente trabalho. Os destaques vão para Eddie Redmayne, que constrói Newt Scamander de forma única, cômica e ao mesmo tempo melancólica ao ser assombrado pelos fantasmas do passado; e Ezra Miller que com sua atuação impecável faz com que nós leiamos os sentimentos de Credence com não muito mais que apenas expressões corporais (até porque ele não tem muitas falas). 

Todos mudam. Eu mudei.

Agora falando como fã de Harry Potter, além de uma experiência cinematográfica, foi uma experiência emocional. Perguntem para minha melhor amiga, eu já estava quase chorando só de ver a logo da Warner e escutar o tema, o filme nem tinha começado! Porém, admito que também não fui com as expectativas tocando o céu. Não esperava voltar ao cinema para assistir à qualquer coisa relacionada ao universo de Harry Potter, e depois de ler o roteiro de Criança Amaldiçoada fiquei desesperançosa quanto à capacidade de manter um canon consistente que sustente a base da série que é, sem dúvidas, os anos de escola do Harry, mas J.K. conseguiu, SHE FUCKING DID IT. O mundo de Newt se encaixa perfeitamente àquele que a gente conhece com uma coerência primorosa (expandindo o vocabulário).

Cinco anos depois (wow, passou tão rápido!) do "fim de uma era" estamos com um olhar diferente do mundo. E parte dessa nova perspectiva pode ser atribuída aos próprios filmes da saga. Eu, pessoalmente, vivi experiências incríveis no mundo bruxo e aprendi lições que talvez eu não aprenderia em outro lugar, que eu consegui adaptar à minha vidinha trouxa. Porque querendo ou não, todo o universo de Harry Potter mesmo sendo fantástico traz críticas sociais muito pertinentes. Talvez eu não tenha lido o filme da mesma forma que as pessoas que estão tendo contato com esse universo pela primeira vez, mas o importante é que ainda assim tive a oportunidade de recriar laços (ao comentar com pessoas que não conversava há anos sobre o filme e que são tão viciadas em Harry Potter quanto eu), fortalecer memórias de quando eu não me importava de sair da minha cidade e passar horas na fila do cinema e especialmente resgatar a minha criança interior que aos poucos vai sendo esquecida. Muito obrigada à todos os envolvidos, especialmente à J.K. Rowling.
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