quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Salada: Luke Cage


CONTRACRÍTICA:



Luke Cage veio ao mundo pela parceria Marvel + Netflix, assim como Jessica Jones e Demolidor. Mas no que a nova série se difere das outras duas? Simples: representatividade.
No cenário mundial atual, onde se iniciou uma caça aos negros, a nova produção veio como munição extra à guerra contra o racismo. Depois de uma reviravolta previsível,  o Harlem, pro bem ou pro mal, acaba criando um herói negro, à prova de balas e que combate o crime, doa em quem doer, usando um moletom com capuz.
Durante o dia, Luke, vivido por Mike Colter, é um auxiliar na Barber Shop de seu gentil amigo Pop (Frankie Faison)  e,  pela noite, garçom na Harlem’s Paradise,  boate que tem como proprietário Cornell Cottonmouth (Mahershala Ali), o homem que mais tarde se tornaria seu inimigo. Falando em vilões, temos personagens decentes, cada qual com sua motivação e personalidade, desde Shades (Theo Rossi),  à Mariah Dillard (Alfre Woodard) que, particularmente, se torna uma das personagens mais interessantes da trama, roubando a cena e deixando Stryker (Eric LaRay) em segundo plano mesmo quando este resolve dar as caras. A conexão entre Cottonmouth e Mariah  funciona e a fidelidade de um para com o outro em cena dá força à relação e quase nos faz criar uma certa empatia pelos vilões.
Mesmo arrastada, a série traz sequências marcantes e entrega uma história decente, belos enquadramentos aqui e ali e até referências a outras produções da Marvel, como Os Vingadores. Além de um elenco majoritariamente negro (sim, it matters), Luke Cage nos presenteia com personalidades da música negra em alguns episódios, não se surpreenda ao ver figuras como Faith Evans e Raphael Saadiq performando na Harlem’s Paradise, isso vai acontecer em alguns momentos e será prazeroso. Nomes importantes na conquista dos negros, como Malcolm X  também são referenciadas a todo o tempo na história. A personagem de Rosario Dawson, Claire Temple,  não só conecta a série a Jessica Jones e Demolidor, mas também tem um papel muito importante na luta de Luke Cage e na busca por respostas do seu passado. Até o próprio Zip (Jaiden Kaine) de Demolidor dá as caras por aqui, sempre em cenas cômicas (ênfase para a cena no terraço onde a personagem diz “Os negros do Harlem estão descontrolados. Vou voltar para Hell’s Kitchen!). O tom já estabelecido nas produções Marvel + Netflix enriquece a trama com seu realismo e as cores quentes de Luke Cage condizem com o estilo e diegese do Harlem. Sim, gostamos de ver as sequências onde a protagonista arromba portas, chuta algumas bundas e repele tiros. O que decepciona em Luke Cage  é a sequência de luta final, contra o que deveria ser o pior dos vilões, mas acaba sendo o mais fraco, Kid Cascavél (Erik LaRay Harvey). A coreografia é fraca, mesmo para uma luta de rua e o antagonista não convence. A joia brasileira Sonia Braga interpreta a mãe de Claire e, mesmo com pouco tempo em cena, a atriz entrega uma figura à altura da personagem de Rosario Dawson.
Luke Cage chegou à Netflix no dia 30 de setembro e é a série mais negra da Marvel. O tapinha de luva necessário em uns e um presente para outros. Depois de assistir, você terá um novo significado para “um café” e pode correr para baixar a trilha sonora, que é ótima. Stay Harlem. Stay black.

HIT MANO:

Se é possível se arrepiar com a trilha sonora de Luke Cage? A resposta correta é: do princípio ao fim. Eu ainda fico me perguntado se o melhor tema é o de abertura ou o tema final.
Um groove de batera simples, um embalo de strings no piano, uma leve distorção na guitarrinha com efeito woah woah e um xilone na percussão compõem um som bem no estilo treino de box com aquela pegada neosoul do gueto, já na abertura da série. Transmite a emoção necessária e faz jus a toda a proposta de uma trama com herói negro e super forte.
Aliás, Neosoul é a grande parada quando se fala de Luke Cage. E impressionante como o som foi bem explorado durante toda a trama que tinha tudo pra se render aos novos, queridinhos e tao dançantes traps de hip hop mas não o fez. Talvez por se tratar de uma série que se baseia em um personagem criado nos anos setenta, época em que o soul reinava no império Black. É certo que existe uma tentativa bem sucedida de transformar o som em atual mesmo com o caráter retrô da soul music. O som é tão bem contextualizado que, até os raps que integram a trilha sonora tem um tom Old School.
A trilha sonora é muito negra, como já esperado. Destaque para uma cena linda onde o senhor vilão se senta  em um piano elétrico e nos entrega um solo que é uma obra prima de arrepiar até os cabelos das pontas dos dedos dos pés (pra não falar os pêlos daquele lugar feio fazedor de número 2). É um solo espetacular do piano elétrico típico de R&B e com acordes que te tiram a respiração comumente presentes nas música de Musiq Soulchild e Robert Glasper, por exemplo.
Mas se vamos continuar falando da trilha sonora de Luke Cage, a maior sacada foi a apresentação dos tradicionais clubes de R&B/Hip Hop dos american ghettos (que este humilde escritor pretende conhecer pessoalmente ainda essa semana, by the way).  Luke Cage apresenta o “Harlem`s Paradise”, um local que não parece diferente dos clubs afro-americanos.  Na verdade, a grande novidade em apresentar esse espaço na série se deve as atrações contratadas pelo local para tocar ao vivo. Sabe aqueles cantores que a gente ama ouvir o som e que, muitas vezes somem do nosso dia a dia ou até da nossa memória? Aqueles muitas vezes ignorados pela mídia, que não ficam lançando single toda hora e que não se entregam à tentação de lançar hits atuais para se tornarem mais comerciais, mas que quando a gente descobre ou quando lança alguma coisa nova que a gente vê é algo apaixonante? São artistas assim que estão presentes na  lista de atrações do Harlem`s Paradise. Artistas como Raphael Saadiq, que além de ser grande musico e produtor tem na bagagem hits tao gostosos de ouvir e relembrar a época do Tony! Toni! Toné!
A voz marcante e linda de Faith Evans cantando um de seus grandes hits Mesmerized me fez lembrar o  porquê eu sinto tanta falta de ouvir mais músicas dela ao vivo. Uma excelente oportunidade para que  o mundo conheça melhor o talento e o timbre inconfundível dela. Mas a presença de Faith Evans é ainda mais ousada na série. Durante vários momentos vemos um quadro do King of New York Notorious BIG pendurado na parede de uma private área do “Harlem's Paradise”. Um rei com sua coroa em um lugar de destaque precisa de quê? Isso! Sua rainha. E lá estava ela. Faith Evans que foi casada com Notorious até que a morte os separou (apesar das más línguas falarem que essa rainha não era tao fiel assim e acabou caindo nas garras de seu pior desafiante ao trono, o senhor 2Pac).
Infidelidades a parte, outras grandes lembranças com as quais o Netflix nos presenteou foi a presença e o som de Charles Bradley, The Delfonics e  Sharon Jones. É sempre bom ouvir um som que remete direto a época que se pretende fazer alusão. Isso fica ainda mais interessante quando vemos lendas da música recebendo o destaque que merecem participando de uma série como essa. Se você nunca ouviu o som dessas duas lendas, o Youtube é nosso amiguinho gratuito e fornecedor de felicidade sonora com certa especialidade em som retro.
Jidenna tem feito um certo barulho por ai com a musica Classic Man e o cara merece o destaque. A ideia de trazer algo vintage com uma pegada atual fez dele uma boa opção para aparecer na série.
Por fim, temos a participação espetacular de Method Man. Além de estar presente em várias listagens de melhores rappers de todos os tempos, o broh ainda traz um discurso fodástico sobre racismo, violência policial contra negros e empoderamento negro durante sua participação na série. Não poderia ser mais oportuno a presença dele na produção, agora em um programa de rádio que realmente existe aqui nos Estados Unidos e que é bem popular entre a comunidade negra.
Para finalizar quero deixar  bem claro meu apoio e orgulho de ouvir o som tema dos finais de capítulo da série. Sempre vou ser fã de um climinha com solo metal (sax, trompete, trombone, tuba seja lá o que estiver tocando)  no meio de um groove neosoul, principalmente se existir algum efeito no som do metal, aí sim fica nice demais. A trilha sonora da série está aprovada por este humilde rapaz que vos escreve, E você? O que achou? Fala comigo, pô. Deixe seu comentário!

RASGANDO O VERBO:

Do ponto de vista social, um homem negro a prova de balas no mundo e momento em que vivemos é uma metáfora, no mínimo, interessante como já citado neste texto. Afinal, quem nunca desejou ter esse super-poder ao se deparar, todos os dias, com manchetes que escancaram o genocídio negro e a violência policial? Só nos últimos três meses, quantas notícias você viu sobre alguém ser executado pela polícia mesmo estando desarmado? Quantos comentários racistas você leu no facebook? Quantas notícias de negros sendo agredidos física e verbalmente e sendo humilhados? Com esses questionamentos estou trazendo à tona a importância de discutir o significado e simbolismo da narrativa abordada na série, de dar protagonismo a um homem afro-americano em tempos de campanhas como Black Lives Matter e, trazendo para o cenário nacional, Jovem Negro Vivo. Esse simbolismo é reforçado pela imagem e personificação do personagem principal: Luke Cage não usa capas ou um uniforme chamativo como outros heróis da Marvel, na verdade, sequer se intitula como herói. Acontece que em seu moletom surrado, Cage representa cada jovem negro periférico que sai todos os dias de casa e é julgado pela cor de sua pele, que atrasa o aluguel e batalha pra pagar as contas conciliando dois ou mais empregos, que sonha em se estabilizar, que espera passar o dia sem topar com a polícia - mesmo que não esteja fazendo nada de errado - e que só quer viver uma vida longe de confusões sem chamar muita atenção.

Além da representação do personagem principal, a série mostra fielmente a alma da cultura afro-americana, especialmente no Harlem - que é retratado exatamente como deveria ser, sem exageros, do senso de comunidade harmônica ao entretenimento e à criminalidade. Os roteiristas e produtores cumpriram com excelência a missão de apostar em um elenco majoritariamente negro sem cometer o erro de cair nos esteriótipos racistas atribuídos ao grupo em qualquer produção que os envolva. Em Luke Cage vemos mais história, luta, referências à figuras icônicas que representam a luta dos negros na História, fibra e resistência ao invés do negro mágico e sem falhas que aparece para salvar o mundo, do negro que precisa ser salvo por um branco ou mesmo da negra cômica e barraqueira presente em todas as séries. Portanto, me atrevo a dizer que Luke Cage é um passo importantíssimo para a representatividade, já que a série joga todos os holofotes para os problemas raciais de forma sutil, dando destaque à negritude e plantando uma sementinha de reflexão em lugares que possivelmente sequer teríamos voz.

Claro que a percepção e esclarecimento não virão naturalmente para certas pessoas e podemos nos preparar para a famosa dose de "white tears" sobre a ausência de protagonismo branco na série e o inexistente racismo reverso. Calm down Beyoncé, vocês ainda detém 74% do protagonismo e, segundo pesquisas, não vão perder todos os privilégios conquistados arduamente através da exploração de outros povos da noite para o dia. Devo dizer que é ótimo incomodar e melhor ainda estar ciente dos espaços que esse protagonismo negro está alcançando. Afinal, não podemos nos esquecer de que todos os direitos e espaços conquistados por nosso povo vieram da percepção de pessoas fora da comunidade enxergando os fatos como problemas e criando leis para solucioná-los. Essa é a importância de um homem negro à prova de balas em um momento de tensão, essa é a importância de críticas à sociedade inseridas na série: a possibilidade de transformação, a esperança de que todos caiam na real e entendam que "Black Lives Matter".

Shout out y'all.


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