domingo, 4 de dezembro de 2016

O racismo existe e tem aval do nosso judiciário

Imagem Ilustrativa.
Vou poupar esse texto de termos técnicos e uma recapitulação histórica acerca do racismo no Brasil e deixarei o espaço só pra manifestar uma indignação imediata. Pois bem. Por algum motivo, talvez pelas competências designadas à esse poder e a atuação sob as diretrizes da constituição, criamos a ideia de que o judiciário irá nos proteger a qualquer custo e garantir que nossos direitos sejam resguardados. Mas acho que devido aos acontecimentos recentes todo mundo aqui deve ter percebido uma coisa: que a justiça só funciona para homens brancos e ricos. Bom, isto é, a não ser que você faça parte da população cega pelo ativismo judiciário e enxergue o Juiz Sérgio Moro como o herói nacional que vai acabar com a corrupção do Brasil. Aham, senta lá.

Eis que nesta bela manhã de domingo acordo com uma notícia da Revista Fórum com a seguinte manchete:

Justiça manda funcionária que denunciou racismo tirar página do Facebook do ar.

Como acabei de acordar, demorei alguns minutos para processar o título da notícia e a primeira reação, por óbvio, foi perguntar "que merda é essa?". Queria que fosse uma manchete sensacionalista como tem acontecido muito de uns tempos pra cá na mídia brasileira. Mas não, é isso mesmo que vocês leram. Sintetizando a notícia Por Matheus Moreira linkada ali em cima, em outubro desse ano a advogada Luanna Teófilo denunciou um caso de racismo na empresa de comunicação onde trabalhava, no ocorrido em questão, a gerente teria a humilhado na frente de toda a equipe ao ordenar que Luanna, uma mulher negra, tirasse suas tranças.

Para quem não sabe, e muita gente claramente não deve saber, tranças não são mera tendência pra tombar nos rolês com o 'squad', como diria um editorial de qualquer revista teen que você encontra por aí. Muito pelo contrário, as tranças são um símbolo de resistência para a cultura negra, o que muitos enxergam como estilo, nós enxergamos como luta e reafirmação de identidade. E por que isso seria racismo? Ora não é óbvio? O RH está demitindo uma mulher única e exclusivamente por ela ser negra e estar reafirmando suas raízes ao trançar o cabelo. Quantas vezes você, mulher negra ou homem negro, não já escutou em uma entrevista de emprego que não se adequava ao perfil requerido pela empresa? Ou que até te contratariam, mas tinha que dar um jeito no cabelo.

Pois, ao contrário de muita gente que sempre deixa passar pra evitar a fadiga, Luanna denunciou a empresa. Acredito que tenha tomado todas as medidas legais cabíveis e além disso criou uma página no facebook intitulada "tira isso" para dar visibilidade à discriminação racial, já que ninguém ficou do seu lado (conta uma novidade pra gente). O que você, Luanna e qualquer pessoa com o mínimo de bom senso espera que o judiciário faça? Que responsabilize a empresa pelo racismo cometido pela gerente que humilhou uma mulher negra no ambiente de trabalho e que a justiça seja feita a favor da advogada, certo? N-o-p-e. O que o judiciário fez? Decidiu pela suspensão da página, já que ela gerou uma repercussão negativa para a empresa (e é que no nosso mundinho capitalista a honra da empresa vale muito mais que o nosso racismo institucionalizado de cada dia), sob a pena de multa de R$ 2 mil por dia que a página permanecer no ar após a decisão.

Agora venham aqui com a tia. Por que infernos a vítima de discriminação racial vira por danos morais? Como esse plot twist aconteceu? Hoje estou só o meme da garotinha da Panificadora Alfa disappointed but not surprised. Mas não é novidade um judiciário omisso e/ou conivente com práticas racistas e isso me frustra muito como mulher negra e mais ainda como estudante de Direito, como disse lá no início: justiça pra quem? Tirando aquelas decisões de grande repercussão midiática a comoção popular, na real estou começando a acreditar que são os únicos casos em que se procuram os responsáveis pra não ficar feio nas manchetes da grande mídia, sempre apertam o botãozinho do foda-se para os negros. Fico aqui só imaginando quantos casos parecidos já não passaram pelas mesas desses juízes e ficaram por isso mesmo, às vezes nem viram casos, porque a gente aprendeu a vida toda que "denunciar racismo nunca dá em nada, é melhor ignorar". Infelizmente, depois dessa e todas as outras vou ter que concordar: "a carne mais barata do mercado é a carne negra". É isso.
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