Arquivo da Categoria ‘Opinião’

Vídeos que vazaram

Num dia desses eu estava em casa, sem nada pra fazer, e foi então resolvi fazer algo que costumo fazer quando estou ocioso: acessar o YouTube e assistir alguns filmes publicitários engraçados e vê-los à exaustão.

Já tinha assistido meia dúzia deles quando me lembrei do memorável comercial intitulado “dança do vazamento”, da Tigre. Digitei o nome e dei busca. Minha surpresa foi inevitável quando vi uma porção de vídeos caseiros parodiando a dança hilária. É um mais inútil que o outro. Entretanto, após ver alguns deles, comecei a refletir. Fiquei pensando na repercussão que esse filme teve no cotidiano das pessoas, por carregar um forte apelo humorístico. Quanta gente deve ter feito essa dança na escola, no trabalho, numa roda de amigos.

Se essas pessoas que postaram os vídeos fazem parte ou não do target da Tigre, isso talvez não importe. Se a aposta foi conquistar ainda mais share of mind e atingir altos índices de recall, o pessoal que roteirizou e produziu o filme acertou na mosca.

Assista, abaixo, ao filme original e, em seguida, os vídeos que levaram a dança ao pé da letra e vazaram na Internet.


Cutucando onça com vara curta

8 de março é comemorado mundialmente o Dia da Mulher. Para a maioria das empresas de diversos segmentos de mercado é uma data imprescindível para estreitar a relação com o público que mais tem conquistado espaço na sociedade contemporânea.

Eis que a Duloren – fabricante de lingeries e até então amiga do peito das mulheres – resolve assinar um anúncio desses no dia delas.

Fica a pergunta: é provocante ou puramente de mau gosto?

Para visualizar em tamanho real, clique  sobre a imagem.


Desencannados

Quem está nessa profissão e ainda nunca ouviu falar do Desencannes pode se considerar um sujeito bem desencanado. Criado em meados de 2005 por três ex-alunos da ESPM, o Desencannes tinha como principal objetivo satirizar o principal evento da propaganda mundial, o festival de Cannes, realizado todo mês de junho na riviera francesa.

Sob o slogan “as pérolas impublicáveis da propaganda”, o site do Desencannes promove concursos de criatividade insana e sarcástica, fazendo com que seus participantes brinquem à vontade com marcas e produtos de uma forma que eles NUNCA poderiam fazer dentro de uma agência de verdade.

Separei, abaixo, três vídeos do Desencannes em Cannes. Imperdíveis!


Tietagem mercadológica

Todo publicitário – desde o maluco da Criação até o tiozão do Atendimento, passando pela moçinha da Mídia – tem uma agência preferida. E quando falo de agência preferida não me refiro àquela que o sujeito fica no batente diariamente, não. Trata-se das grandes agências, especialmente de São Paulo, detentoras de contas colossais e que por uma série de fatores – favoráveis, é claro – criam vez ou outra aquelas campanhas geniais, memoráveis, que a gente fica boquiaberto, perguntando-se “porque EU não tive essa idéia?”.

Pois bem, a minha Penélope Cruz das agências é a AlmapBBDO. Liderada pelo publicitário e colunável Marcello Serpa, a Almap é – pelo menos na minha opinião – a agência mais criativa do Brasil. E não digo isso só porque todo ano ela figura no topo do ranking das agências mais premiadas do mundo. Tudo isso é besteira. Gosto da Almap pelo fato de ela conseguir combinar o irreverente com o clássico, o simples com o sofisticado, o pertinente com o fútil. Talvez seja isso. Ou talvez não, sei lá. Até porque quando o assunto é Almap, a gente sempre é surpreendido novamente, e novamente, e novamente.

Fiquem, portanto, com alguns dos meus filmes prediletos.

 

 


Para inglês ver e beber

Pegando literalmente carona com o meu post anterior – cujo tema girou em torno de uma campanha que criamos na agência a respeito da combinação de bebida e direção – desta vez resolvi mostrar o lado dionisíaco das bebidas alcoólicas: as suas propagandas.

Pra mim,  sentar-se numa mesa de bar e beber aquela cervejinha com os amigos está no mesmo nível de prazer se comparado ao sentar-se na frente do computador e assistir aos comerciais de marcas de cerveja mundo afora, disponíveis aos montes no You Tube.

Separei, abaixo, alguns dos meus preferidos. São de encher a cara. Ou melhor, os olhos.

 
 

Público single: uma oportunidade de mercado

No ano passado, a Nestlé lançou uma embalagem promocional para o Nescafé, em sachês, que vinha com essa caneca da foto aí de cima de brinde. Como eu moro sozinha, fiquei encantada: só quem mora sozinho sabe quantas coisas são desperdiçadas, principalmente alimentos. Tudo, porque as empresas ainda não vislumbraram as oportunidades de mercado que este tipo de público representa.

Imagine se pudéssemos ir ao supermercado e comprar caixinha de leite de ½ litro. Ou potes de requeijão e margarina com a metade do tamanho (da embalagem pequena, né!?). Parece coisa boba, mas o mercado single tem crescido assustadoramente nos últimos anos. De acordo com dados do IBGE, o número de pessoas que moravam sozinhas em 2005 era de aproximadamente 6 milhões de pessoas. A estimativa é que em 2016 este público chegue a 12 milhões de indivíduos.

Por isso, cada vez se torna mais necessário que as empresas fiquem atentas ao tipo de comportamento deste consumidor. Valorizá-lo pode ser uma excelente oportunidade de mercado. E isso é válido para todo tipo de empresa: desde aquelas do segmento alimentício até as do ramo imobiliário.

Vale lembrar que o público single é muito diversificado. Engloba desde estudantes, executivos e solteiros como também os divorciados e viúvos. Como você pode ver, o perfil deste consumidor engloba variadas faixas etárias, com diferentes hábitos de consumo. Estudar suas necessidades é fundamental.

No caso do Nescafé, pode parecer algo super simples: é o mesmo produto, só que embalado em sachês. Para outro tipo de cliente, talvez tenha passado batido. Mas você pode ter certeza que o público single reconheceu a praticidade.

O mais bacana é que, na época, a Nestlé colocou uma mensagem na embalagem para dimensionar a satisfação do cliente. Algo como: “se você gostou, ligue e conte para nós”. Certamente, a intenção era a de detectar a oportunidade de transformar a edição limitada em um produto permanente.

E olha que eu, que não sou muito de ficar ligando para empresa nenhuma, mais do que depressa peguei o telefone e liguei no SAC da Nestlé para elogiar.


Publicidade móvel

Cada vez mais, o celular, é a ferramenta essencial nos bolsos e bolsas dos brasileiros, e as propagandas não podiam ficar de fora desse amplo instrumento. Com o aumento de celulares que possuem coberturar para internet, o número de campanhas publicitárias que envolvem características específicas para celular, é cada vez maior.

Se a publicidade para esse tipo de mídia não for útil, o consumidor não irá clicar nela, impossibilitando a  comunicação. As mensagens devem ser criativas e impolgantes a ponto de instigar o receptor da mensagem a interagir com ela, como em outras mídias digitais.

Vendo essa dificuldade na comunicação, as empresas, para atrair o público-alvo, criam programinhas próprios podendo ser baixados e utilizados para diversas necessidades, como por exemplo: programas que lhe alertam sobre quando deve usar o protetor solar ou até mesmo quando você deve fazer as refeições, ou então sobre propagandas específicas.

O publicitário Leo Xavier, dá o exemplo do programa para iPhone criado para a marca de protetores solares Nivea Sun: “O aplicativo te localiza e dá informações sobre a temperatura no local. Você coloca sua idade e tipo de pele, e o programa diz qual produto usar, além de te lembrar de reaplicar o protetor de tempos em tempos”, explica ele.

A cada ano, devido a expansão tecnológica, a publicidade tem se adequado perfeitamente as necessidades de uma nova forma de comunicação, e as prospecções para esse ano que se inicia, são boas.

Confira abaixo algumas campanhas criadas para os aparelhos móveis.


Se fossemos médicos ou advogados tudo seria mais fácil

Tem um negócio nessa profissão que é difícil mesmo. Não pense que se trata dos prazos malucos impostos pelo Atendimento ou até os horários alternativos de trabalho, muito menos quando o cliente mais exigente não aprova um anúncio nem mesmo pela milionésima vez.

Faz pouco tempo que trabalho em publicidade, porém, já pude perceber o quão difícil é explicar para as pessoas o que realmente eu faço. Toda vez que alguém cisma de perguntar como ganho minha grana é sempre a mesma coisa. E o pior: tudo acontece naquelas benditas reuniões de família. Haja saco!

- Ô, legal, hein!Você trabalha em propaganda, né? Em que área?

- Ah! Eu trabalho na criação, sou redator!

- Você cria os anúncios e tal?

- É isso aí! Eu e o diretor de arte.

- Ah, entendi! Você cria o anúncio junto com o seu chefe?

- Não, não, com o diretor de arte. É que eu sou redator e na criação as pessoas trabalham em duplas: um redator e um diretor de arte.

- Mas você não é diretor?

- Não, eu sou redator, mas o diretor de arte também não é diretor. O único diretor é o diretor de criação.

- Pêra aí, o diretor de arte não é diretor?

- Não, o diretor de arte é igual ao redator.

- Mas qual a diferença?

- Eu escrevo e ele é responsável pela imagem.

- Mas num comercial de televisão, por exemplo, só tem imagem!

- Mas o que os atores falam é um texto e geralmente quem escreve o texto é o redator.

- Como assim, geralmente?

- É que de vez em quando eu posso pensar na imagem e o diretor de arte no texto.

- O seu chefe?

- Não, o meu chefe é o diretor de criação.

- E quando é que você vai virar diretor?

- Sei lá, eu posso ser redator a vida inteira.

- Mas você não quer subir?

- Lógico que eu quero.

- Mas e você não for diretor, você vai ganhar sempre a mesma coisa.

- Não, existem redatores experientes e muito bons que ganham muito bem, mas não são diretores.

- Difícil, hein?

Adaptação do texto original de José Pedrebon, retirado de seu livro “Curso de Propaganda: do anúncio à Comunicação Integrada”.


BB e o marketing cultural

 

untitled.bmp

 

Há pouco mais de um mês, acabei de ler o livro “Privatização da cultura”, escrito pela taiwanesa Chin-Tao Wu, da Universidade College de Londres. A obra aborda o chamado “marketing cultural”, especialmente quando utilizado por bancos e empresas de cartão de crédito.

A verdade é que não conheço nenhuma instituição bancária que não tenha transformado a cultura num grande negócio. Mas este artigo não é uma crítica. Quando existe uma troca, ou seja, a promoção da empresa e, ao mesmo tempo, a valorização da arte, a atividade é válida e tende a beneficiar os dois lados.

Nesse contexto, aproveito para escrever sobre a Mostra Instrumental das Américas, promovida pelo Centro Cultural do Banco do Brasil. A atividade faz parte de uma série de eventos culturais promovidos pelo BB. O evento é realizado no Teatro do Centro Cultural de São Paulo, sempre às terças-feiras, em dois horários: às 13 e 19h. As apresentações se estendem até o dia 28 de agosto e os preços dos ingressos variam de R$3 a R$6.

Mesmo que a intenção do banco seja a de agregar valor à marca e associá-la à cultura e, de certa forma, à responsabilidade social, o evento acrescenta algo ao público. E não é apenas uma exposição voltada para um público seleto, já que os preços poupulares tornam possível o acesso de músicos e apreciadores das mais diversas classes sociais.

A Mostra reúne grandes artistas da música instrumental americana como os brasileiros Marcos Suzano e Paulo Moura e Cliff Korman, dos EUA. São atrações que vão desde as músicas tradicionais às de concerto e experimentais e que trazem ao público a diversidade de estilos como a salsa, jazz, tango, choro e outros gêneros musicais que retratam de diferentes formas as manifestações culturais do continente.

Mais informações sobre a Mostra podem ser adquiridas pelo website http://www.bb.com.br/ .


Criatividade e sensibilidade: estímulos em falta

Coma. Beba. Experimente. Mude. Tente. Pense diferente. Enfim, “just do it”.

Vivemos hoje em um mundo vazio, de diferentes estímulos, sem emoção e sensibilidade. Aparentemente apresentados como valiosos conselhos, esses conceitos são parte de uma exacerbada estratégia para potencializar o ritmo de consumo, aumentando a demanda por novos produtos, serviços, sensações, tendências etc.

A propaganda mundial está focada no imediatismo. É claro que isso é perfeitamente compreensível. Afinal, uma das funções básicas da propaganda é vender. Isso é fato. Porém, não existe apenas a venda de produtos. Podemos vender também idéias, conceitos, atitudes, mudanças, filosofias de vida e, até mesmo, a própria vida.

É possível dizer que o consumidor moderno já está acostumado a ‘receber ordens’ e conviver com tantas mensagens imperativas. Isso, aliás, funciona muito bem. Essa técnica de criação já passou pelo crivo e é, comprovadamente, eficaz.

A questão é: onde está a propaganda que emociona, que faz chorar, rir e, principalmente, pensar? Onde está a propaganda que caminha e vai ao encontro da arte?

Quem não se lembra das memoráveis campanhas dos anos 80 e 90? Lembro-me muito bem do VT que mostrava um orelhão agonizando na rua, cercado por várias pessoas que, ali, presenciavam a sua morte. Naquela época, na cidade de São Paulo, os orelhões estavam sendo alvos de vândalos que, impiedosamente, quebravam todos os orelhões que encontravam pelo caminho. Maravilhosamente criado por Washington Olivetto, o comercial emocionou, tocou a fundo a população, sensibilizando até mesmo um bando de vândalos. Após a veiculação da campanha, os prejuízos da empresa de telefonia pública da época foram reduzidos significativamente.

Campanhas assim, que adotam uma linha criativa emocional, ficam, formam opinião, caráter e comportamento. Marcam toda uma geração que, como a minha, ainda lembram-se do primeiro soutien, do 752 da Vulcabrás do jingle que dizia Varig, Varig, Varig e do comercial da Revista Época, intitulado “Semana”.

Atualmente é tão raro encontrar campanhas assim que me lembro apenas de um recente VT do Greenpeace que usa como back ground e trilha sonora a música My Way, interpretada por Frank Sinatra. Sensacional, emocional, funcional, brilhante. Isso é arte, é propaganda.

Em um discurso como paraninfo de uma turma de universitários, Nizan Guanaes disse que Michelangelo não pintou a Capela Sistina por dinheiro. Foi em nome da arte. O fato é que o valor das pinturas, hoje, é incalculável. É impossível calcular não só o valor monetário, mas também o valor sentimental e o que ela representa para a humanidade. Naquela oportunidade, Nizan quis dizer que é preciso ter tesão em tudo o que fazemos e que o dinheiro importa sim, mas não é a razão de tudo. Na propaganda é a mesma coisa. Para quem vai ser um profissional de propaganda, acho fundamental pensar sobre isso.

É fundamental pensar que a propaganda é uma arte e nós, publicitários, somos artistas do mundo moderno. Somos responsáveis pela arte e profissionalismo na propaganda. Responsáveis por continuar criando estímulos vazios e sem criatividade ou emocionar, fazer rir, chorar, pensar e, é claro, verder. “Just do it”.

Erick Cypriano – redator publicitário – erick@odyn.com.br