
No ano passado, eu comecei a pesquisar sobre a retratação do indígena na publicidade brasileira. Era o tema do meu projeto de iniciação científica. É claro que tive muita dificuldade para encontrar peças publicitárias que retratassem os povos nativos do Brasil. A ausência deles na publicidade é fruto de uma exclusão social que teve início desde que o primeiro índio foi morto durante a invasão portuguesa.
A população originalmente nativa é, hoje, pouco expressiva. De acordo com a FUNAI - Fundação Nacional do Índio, os nativos que vivem em aldeias não totalizam, atualmente, mais que 0,25% da população total do país. Por isso, quando as pessoas vêem um anúncio protagonizado por índios, não existe identificação, pois parece-lhes que esta é uma causa muito distante. Além disso, as poucas peças publicitárias que tive oportunidade de analisar, retratavam nossos aborígenes como nativos da América do Norte. Um exemplo disso é o VT veiculado pela Philco, “Pequeno 14″, que encontrou base nos filmes americanos de bang-bang para a composição de cenário e figurino. O roteiro do vídeo parte da aceitação da tecnologia por parte dos nativos como se isso fosse algo bom para eles e os retrata como inferiores, na medida em que o índio assume sua ignorância em lidar com aparelhos tecnológicos.
Quando a publicidade não reforça a imagem de que os povos indígenas são inferiores, distancia a realidade das tribos indígenas da dos consumidores. Por isso, fiquei muito surpresa ao ver a nova propaganda da Grendene, que está sendo veiculada há cerca de um mês. De acordo com o Portal da Propaganda e conforme publicado no website do Clube da Criação de São Paulo, a produção do vídeo foi elaborada de forma a retratar fielmente a realidade das tribos do Parque Indígena do Xingu: não há atores, cenários e nem figurinos preparados. Os “atores” são indígenas Kisêdjê e utilizam, no filme, trajes característicos de festas e rituais. O vídeo foi gravado na própria aldeia.
O filme mostra a top Gisele Bündchen se adornando dentro de uma oca, com a ajuda de outras mulheres, enquanto os homens participam de um ritual para trazer chuva. Com o início da chuva, os homens alcançam seu intuito. E as mulheres também: Gisele fica ainda mais bonita como índia. E, então, um dos homens entra na oca e traz um pote cheio de água, para que ela possa olhar seu reflexo. Desta forma, o filme valoriza a beleza indígena ao mostrar que a modelo mais invejada pelas mulheres brasileiras tem um referencial de beleza totalmente diferente do imposto pela sociedade.
O mais interessante é que o produto foi criado por iniciativa da top, que visitou o Xingu e ficou sensibilizada. A Grendene, parceira de Gisele há quatro anos, envolveu-se no projeto e propôs a criação de um produto temático sobre o Xingu. Parte da verba arrecadada pela venda da sandália será revertida para o Projeto Y Ikatu Xingu (“Salve a Água Boa do Xingu”), do Instituto Socioambiental (ISA).
Se você quiser conhecer o hotsite da Grendene, clique aqui.