Sexta-feira, 05 de Setembro de 2008

Coma. Beba. Experimente. Mude. Tente. Pense diferente. Enfim, “just do it”.

Vivemos hoje em um mundo vazio, de diferentes estímulos, sem emoção e sensibilidade. Aparentemente apresentados como valiosos conselhos, esses conceitos são parte de uma exacerbada estratégia para potencializar o ritmo de consumo, aumentando a demanda por novos produtos, serviços, sensações, tendências etc.

A propaganda mundial está focada no imediatismo. É claro que isso é perfeitamente compreensível. Afinal, uma das funções básicas da propaganda é vender. Isso é fato. Porém, não existe apenas a venda de produtos. Podemos vender também idéias, conceitos, atitudes, mudanças, filosofias de vida e, até mesmo, a própria vida.

É possível dizer que o consumidor moderno já está acostumado a ‘receber ordens’ e conviver com tantas mensagens imperativas. Isso, aliás, funciona muito bem. Essa técnica de criação já passou pelo crivo e é, comprovadamente, eficaz.

A questão é: onde está a propaganda que emociona, que faz chorar, rir e, principalmente, pensar? Onde está a propaganda que caminha e vai ao encontro da arte?

Quem não se lembra das memoráveis campanhas dos anos 80 e 90? Lembro-me muito bem do VT que mostrava um orelhão agonizando na rua, cercado por várias pessoas que, ali, presenciavam a sua morte. Naquela época, na cidade de São Paulo, os orelhões estavam sendo alvos de vândalos que, impiedosamente, quebravam todos os orelhões que encontravam pelo caminho. Maravilhosamente criado por Washington Olivetto, o comercial emocionou, tocou a fundo a população, sensibilizando até mesmo um bando de vândalos. Após a veiculação da campanha, os prejuízos da empresa de telefonia pública da época foram reduzidos significativamente.

Campanhas assim, que adotam uma linha criativa emocional, ficam, formam opinião, caráter e comportamento. Marcam toda uma geração que, como a minha, ainda lembram-se do primeiro soutien, do 752 da Vulcabrás do jingle que dizia Varig, Varig, Varig e do comercial da Revista Época, intitulado “Semana”.

Atualmente é tão raro encontrar campanhas assim que me lembro apenas de um recente VT do Greenpeace que usa como back ground e trilha sonora a música My Way, interpretada por Frank Sinatra. Sensacional, emocional, funcional, brilhante. Isso é arte, é propaganda.

Em um discurso como paraninfo de uma turma de universitários, Nizan Guanaes disse que Michelangelo não pintou a Capela Sistina por dinheiro. Foi em nome da arte. O fato é que o valor das pinturas, hoje, é incalculável. É impossível calcular não só o valor monetário, mas também o valor sentimental e o que ela representa para a humanidade. Naquela oportunidade, Nizan quis dizer que é preciso ter tesão em tudo o que fazemos e que o dinheiro importa sim, mas não é a razão de tudo. Na propaganda é a mesma coisa. Para quem vai ser um profissional de propaganda, acho fundamental pensar sobre isso.

É fundamental pensar que a propaganda é uma arte e nós, publicitários, somos artistas do mundo moderno. Somos responsáveis pela arte e profissionalismo na propaganda. Responsáveis por continuar criando estímulos vazios e sem criatividade ou emocionar, fazer rir, chorar, pensar e, é claro, verder. “Just do it'’.

Erick Cypriano - redator publicitário - erick@odyn.com.br

5 comentários »

  1. Disse tudo, o ser humano já se acostumou com a forma imperativa, e a criatividade e a Campanha que faz rir e chorar estão em extinção!

    Um abraço

    Helena

    Comment by Helena — Segunda-feira, Julho 23, 2007 9:48 AM

  2. Realmente perfeito esse post Erick.
    O ato de vender tornou-se tão banal que estamos na época do “qualquer besteira serve”.

    Meus parabéns e com certeza quem passar por aqui e ler o seu texto vai parar para pensar, que na minha opinião é o item mais importante da lista.

    Abraços.

    Comment by Felipe Ranieri — Quarta-feira, Agosto 1, 2007 5:19 PM

  3. Obrigado a vocês que leram o texto e deixaram aqui seus comentários. A idéia principal do texto é mesmo, como disse acima o Felipe, propor uma reflexão aos redatores de todo o país. Valeu, gente.

    Grande abraço.

    Comment by Erick Cypriano — Quinta-feira, Agosto 2, 2007 9:02 AM

  4. Sinceramente, acho seu post muito emotivo e engenhoso. mas até nele falta criatividade. todo publicitário sabe e quer que seu trabalho seja comparado a arte. todo publicitário quer ser premiado e reconhecido como vanguarda. nao discordo, mas a propaganda além de linda, tem que vender. essa é minha opinião.

    obrigado por postar um texto bem escrito como o seu.

    Comment by Ricardo — Domingo, Agosto 12, 2007 12:41 PM

  5. Ricardo,

    Concordo plenamente com você quanto a função básica da propaganda. Obviamente ela, a propaganda, é uma ferramenta do marketing para vender sim. Agora pare um instante e responde a uma pergunta. Qual argumento vende mais, o que atinge diretamente o emocional do consumidor ou aquele que pura e simplesmente oferta algo sem valor agregado? Se você estiver pensando nos vários spots televisivos das Casas Bahia, desista. Lembre-se que a Casas Bahia não vendem apenas produtos. Como dizem por aí, “o buraco é mais embaixo”. Na verdade, as Casas Bahia vendem a oportunidade de classes sociais de menor poder aquisitivo realizarem sonhos de consumo. É fomentar a ilusão de que um cidadão de classe “D” ou “E” vai sentir-se “feliz” e “realizado” por ter um eletrodoméstico ou algo eletro-eletrônico antes só encontrado em salas, copas e cozinhas da classe “A”. Pois é, mais uma vez o emocional está à frente. Além disso, pesquisas “Top of Mind” deixam bem claro e evidente que as marcas mais lembradas são aquelas que fazem parte do coração do consumidor. Ou você acha que, tantos anos depois, eu ainda iria lembrar do 752 da Vulcabrás e do primeiro soutien? Detalhe: eu não uso e nunca usei um soutien.
    Entendo e respeito sua crítica. Na verdade, ao redigir meu texto, não tive a menor intenção de ser criativo. Foi apenas um toque e um desabafo de um redator. Por isso, sugiro que você releia-o e, dessa vez, com mais atenção.

    Grande abraço.

    Comment by Erick Cypriano — Terça-feira, Agosto 14, 2007 3:14 PM

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